sábado, 24 de dezembro de 2011

Na melhor das hipóteses, no pior dos mundos possíveis.

O que é melhor, isto é, o que é menos pior? Hiperventilar com o frio extremo na pele e o ar gelado invadindo as vias respiratórias ou sibilar sem parar devido à falta de oxigênio provocada pela intermação?

Medir dores, sofrimentos e flagelos não é algo muito comum. É sábio escolher a própria pena (ainda que merecida ou não) ou apanhar um problema para si próprio a fim de evitar outro supostamente pior?

O quanto de sentimento é necessário para os que estão a nossa volta perceberem nós mesmos como equilibrados, estáveis e normais? Pode-se dosar sentimento? Em quais ocasiões? Onde a expressão é profunda demais e onde ela se torna superficial? E quando é necessário se preocupar com os que estão a nossa volta?

Porque, todo mundo sabe ou pelo menos imagina, é sempre bom demonstrar um mínimo de sentimento vez ou outra. Vale até chorar como o Tom Cruise naquele filme sobre flores e perdão. Ainda que o choro (o seu e o do Tom Cruise) seja mais falso que nota de três reais vale a pena a sua expressão. É que nem demonstrar solidariedade dando os pêsames numa perda que não te afeta muito, na verdade não te afeta em nada, mas você imagina (dizer que sabe é besteira) o quão dolorosa possa ser aquela perda para o que sofre.

Egoísmo? Não. Autodefesa? Muito menos. Também não se trata de conformismo, apenas aceitação. Abrir os olhos para a realidade de que o sofrimento em alguns casos é inevitável. Já sei, muitos dirão que a dor é que é inevitável e o sofrimento é que é opcional, certo, mas vale lembrar que esse não é um conceito muito menos uma idéia absoluta. Em alguns casos o sofrimento será opcional sim.

A discussão toda se dá pela complexidade que é pensar em escolher os problemas. Escolher as felicidades, em cem por cento dos casos, envolve enfrentar uma dúvida facilmente sublimada no desfrute da recompensa. Ninguém fica pensando em Aruba enquanto está deitado ao Sol de Vanuatu. Já ter de optar por diversos tipos de dores, sofrimentos e angústias é uma tarefa terrível. O sofrimento já começa na própria escolha.

“Relativizar”sofrimentos, dores e angústias é algo extremamente fastidioso, mas imprescindível para quem quiser compreender qualquer coisa fora da alçada individualista. É o grande mal da nossa juventude estragada pós-moderninha. Hedonismo, niilismo, ateísmo conceitos bonitinhos e prepotentes que logo se esvaem quando a primeira garota dá o fora da boate ou o primeiro aviso de “eu vou embora” é proferido. Aí as crianças mimadas e altamente dependentes (o medo da solidão é a marca da nossa garotada) junto com a indecisão (que dependendo do ponto de vista não constitui em si um problema) abrem o berreiro. Querem atenção, conselhos, alguém que as ensine a serem menos dependentes, menos individualistas, menos moderninhas quebradeiras de garrafa ou cambaleantes da madrugada.

Quando se deixa a alçada individualista é que o espiritualismo, antes estático, é tomado por uma faísca de compreensão (vale epifania, serendipidade, qualquer coisa imersa em entendimento) e a crença pode aflorar. Não, não é apostasia, muito menos proselitismo, simplesmente crença. Digo “crente” não no sentido pejorativo com o qual nomeiam os protestantes, apenas crença no sentido de se crer e aceitar em algo mais. Algo além da alçada do próprio umbigo, fora do diâmetro da coroa dos egos inflados de super-homem cansados de ler Nietzsche. E quando um desses jovenzinhos arrogantes descobre isso, quando destoa da juventude pós-moderna, é tido pelos outros como um estóico, um “iluminado” ou então, um simples louco. Mas como todos estão preocupados em arrumar público para seus monólogos ou terapeutas gratuitos, os diferentes acabam incumbidos do chatíssimo papel de ouvidor-mor.

Salvam-se os que compreendem tal habilidade e passam a guiar os outros. Purificam-se os que auxiliam os jovenzinhos arrogantes a lidarem melhor com seus sofrimentos. Saem por cima aqueles que manejam carisma e boas idéias sem sofrerem a ação do desgaste oriundo do falatório alheio.

Na melhor das hipóteses, no pior dos mundos, eu manejo bem as idéias, mas não tenho nenhum carisma. Logo não preciso arcar com o cargo de ouvidor-mor, e dou graças a Deus por isso.

(09.12.07)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

TKO

Mais que uma questão de incerteza, um desconforto em relação as próprias limitações melhor definiria tudo aquilo. Eu caí três vezes naquela semana ou então alguém achou que eu não estava em condições suficientemente boas para prosseguir. Jogaram a toalha e uma luta (longa) acabou. Não importava, desde que certas feridas e arranhões, hematomas e equimoses fossem de delicada recuperação, tudo estava em ordem. Mais ou menos, se levasse em conta que toda porrada envolve sequelas. E sair em frangalhos e tentar seguir em frente depois de viver minha Dunquerque interna não foi nada fácil, não seria pra ninguém.

Você me aguardava ansiosamente na estação do metrô onze semanas antes de tudo aquilo acontecer. Um punhado de boas notícias mais um emaranhado de fatos tortos sacudiram todo o meu ser. Eu estava mal treinado, mal preparado, fora de forma física e psicológica, mas na época nem sabia disso. Um chamado para o ringue havia sido feito. Não prestei tanta atenção como devia ter prestado. O decorrer das semanas restantes envolveu pequenas, quase imperceptíveis crises, todas no sentido de me levar ao nocaute técnico daquela semana bizarra.

Um jab para me afastar, um direto no nariz embaça a vista, um gancho no queixo confunde a direção, um uppercut no plexo solar me tira o fôlego. Um cruzado de direita no malar me faz cuspir sangue e vem acompanhado da pergunta: “você está pronto para o chão?” não, não estou, mas de nada adianta contestar. Beijo a lona mesmo assim. A contagem começa e ao final dela minha cabeça roda em todas as direções e sentidos imagináveis. Perco qualquer noção de leste, oeste, norte ou sul. Sinto a mente rodar, roda igual na época do haxixe barato ou da cachaça cara, ambos tem o mesmo efeito de uma porrada bem dada.

Foi isso, não funcionou a forma como se esquivou em pêndulo, se esgrimou absorvendo golpes ou se clinchou para ganhar fôlego. A derrota foi minha. Há tantas lutas por aí, conflitos e desafios em todo lugar. Apostas, torcidas contra e torcidas a favor, empresários sem caráter e treinadores de boa vontade completam o conjunto. O restante do ano seguiu assim.

E uma revanche agora parece sem sentido para nós dois. A temporada se encerra, nos retratamos e resolvemos não brigar mais um com o outro. Está tudo bem agora. Ambos absolvidos pelo júri que mais importa: nós mesmos.

Nessa nova etapa, vislumbramos mais problemas, outros conflitos e eu, em minha limitada porém esforçada visão, vejo um novo desafio. Um adversário melhor preparado, mais treinado, cicatrizado e com mais experiência, egresso de lutas e porradas nada fáceis.

Na próxima temporada o desafio será eu versus eu mesmo.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sinapses e sinopses

“Isso é sorte, falta de sorte, um pouco de sorte ou um mínimo de azar? Num acidente o que é melhor? Perder a visão ou uma das pernas? Qual braço é preferível que o elevador esmague? O mais forte ou o mais hábil? Ah! Quanta merda estou pensando, nem devia estar com a cabeça nisso, que coisa mais Styron imaginar somente opções terríveis em todas as coisas. Acertar cinco dezenas na mega sena, então. Muito dinheiro e algum dinheiro. Sorte ou revés? Relativizar, é isso. Tudo se resume em relativizar, não há mais bom ou mau, certo ou errado, cheguei no momento do ‘não é bem assim’. Sob pontos de vistas e óticas diversas qualquer um pode opinar sobre qualquer coisa.

Um rapaz no metrô observa uma menina baixa e loura, é gostosa do tipo que não aparece tanto. Alheia a ele, lê um livro do Manuel Bandeira. O rapaz pensa que ela pode ser a sua próxima ex-namorada (a inevitabilidade de estragar as coisas é própria dele) basta falar com ela e convidá-la para uma cerveja. Ele caminha em sua direção, o trem freia bruscamente e o rapaz tropeça. Não cai no chão pois apoia-se nela. Uma de suas mãos, sem querer, agarra o seio esquerdo da menina. A excitação ao sentir aquele seio perfeito, em formato de nectarina e parendo tão suculento quanto a fruta é logo quebrada pela vergonha que lhe toma aos constatar o quão idiota ficou parecendo. A única coisa que diz é um pedido de desculpas, a garota sai do vagão sem graça. Ele nem chega a saber se ela realmente deveria saltar naquela estação ou não.

Uma assistente de marketing, parada no mesmo cargo há três anos, resolve transar com um gerente regional recém chegado ao seu setor. Ela tenta convecer a si mesma que está fazendo isso mais por prazer do que por negócios, mas se surpreende ao aceitar que vai vender o corpo para conqusitar um cargo, um salário e um status mais elevado, na companhia e na vida. Se ninguém souber, ela sai impune e ainda fica com um trabalho melhor.

Um moleque de dezoito anos recém completados escapa de ter seus rins e fígado retirados por uma mulher mais velha que o provoca num bar-boite com o intuito de levá-lo para o quarto de hotel no qual está hospedada. Ele aparanta certo receio e insegurança, mas, temendo ser ridicularizado pelos amigos, decide acompanhá-la achando que vai transar. Antes vai até o balcão e pede uma tequila tripla para o bartender. Acredita idiotamente, que a bebida pode melhorar sua performance e espantar seu nervosismo. O drink desce mal e ele vai ao banheiro. Passa vinte minutos dentro da cabine vomitando. Quando se recobra percebe que a moça já não está mais na pista. Foi para outro bar-boite, um outro rapaz saudável não recusa sua oferta e nunca mais é visto.

Traído pelo suposto gosto refinado, um provador profissional de café, tem a língua queimada por um chá quente oferecido em um restaurante barato. Ele perde um concurso onde era favorito, perde um prêmio em dinheiro muito bom, perde publicidade junto aos fornecedores, donos de cafés e apreciadores ricos. A situação se torna pior quando descobre que perdeu boa parte do paladar. Entregue à depressão,

Um black out. Agora. Não! Eu fechei os olhos, a enfermeira, por algum motivo, pingou alguma coisa neles. Volto a ver o disco de luz sobre a minha face. Só agora eu penso em todas as besteiras que deixei de fazer, no tempo que perdi e que não perdi em coisas inúteis, só nesse momento eu reflito idiotamente sobre sorte e azar, sobre compartimentos e comunicações.

Eu duvido muito, com todas as minhas forças, que esse procedimento cirúrgico vai ser um sucesso. E eu queria avisar tanta gente. Ok, nem tanta gente assim, mas talvez poder falar pra quem precisasse saber. Mas agora fui me meter nessa. O mais certo é que não agora, há algum tempo atrás, mas também não tanto, só o que dápra lamentar e não ter percebido esse lapso, não ter vislumbrado o exato momento em que eu tomei o rumo que me trouxe para essa mesa e essa equipe estranha. Um grupo que aplica injeções e põem algo em meu rosto que me deixa muito bem, anestesiado. Minha respiração é a mais sossegada do universo. Minha circulação, a mais serena. Só ate perceber o que vai acontecer, aí quero me livrar das amarras, das mangueiras em meus braços e apagar o disco de luz que se projeta em minha face.

E a vontade de berrar furiosamente num mundo louco, escasso de sinapses e carente de sinopses, reflentindo todo o vazio e inimaginável que consta dentro de mim. E tudo isso só para aplacar uma porção de ansiedade semanal, diluída no correr das horas frígidas e atávicas que sempre me aporrinham o espírito.”

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Um affair iniciado na loja de luminárias

- Nunca fiz isso – era mentira. Aquela era a terceira vez que Caroline cometia infidelidade conjugal. Os outros dois caras tinham dado motivo: haviam-na traído também. O atual... o atual não dava motivos... talvez fosse um tanto bonzinho-babão demais... talvez ela estivesse apenas a fim de aventura. O certo é que a cara amassada, a barba pinicante e o olhar constantemente semi cerrado de Eduardo não podiam deixar a moça menos atraída. Sem pensar aproximou seu rosto do dele e, ao mesmo tempo em que mordia seu lábio inferior pôs a língua com tanta intensidade na boca do rapaz que lhe fez cócegas no palato.

- Eu também não...- Eduardo mal teve tempo de terminar a frase. Teve a boca invadida pela língua de Caroline. Também mentia, aquela era a segunda vez que traía alguém. A primeira namorada simplesmente estava minando o relacionamento, a segunda ele imaginou ser do tipo que não merecesse tal deslealdade, a terceira e atual, menos ainda, mas agora, agarrando as coxas roliças de Caroline numa loja vazia em uma tarde de terça feira, ele constatava que ninguém era totalmente imune à traição. Estava certo em seu artigo.

- Não é irônico? – falou a moça com voz ofegante – Estarmos fazendo algo que ninguém pode ver, justo aqui? Numa loja de luminárias?

- Acho que essa é graça da coisa, Carol... eu sentia minha vida muito sem graça antes de te ver. Minha mulher, meu trabalho, meu apartamento, nada parecia fazer sentido, puro clichê mas eu me sinto mais vivo aqui com você... - tanto tempo te olhando na redação e não podendo fazer nada...

- Você já me olhava assim tem tempo?

- Lógico! Você também, não?

A moça por um breve momento olhou para baixo envergonhada. Voltou os olhos novamente para Eduardo sem entregar os pontos.

- Não! Fiz isso num impulso!

Eduardo balançou a cabeça reprovando a resposta de Carol.

- Sabia... tsc, tsc, tsc...

- O que? O que você sabia?

- Que você, na sua insegurança, jamais admitiria que já olhava pra mim há um tempo. Trabalhamos juntos tem pelo menos um ano e sempre cruzei olhares com você. Nas reuniões de pauta, nos happy hours, até na bancada! E você nunca desviou o olhar...

- E por que eu falaria isso?

- Porque você nunca assumiria que sua infidelidade nasceu lá atrás. Quando passou a flertar comigo, ainda que apenas de vista.

- Mas fiz tudo num impulso! Quem me trouxe para essa loja foi você! E nem queria ver luminárias!

- Claro que não! Queria te agarrar! Já pensava nisso há semanas!

- Tá vendo? O plano todo foi seu!

- Claro que foi! Mas você também não pode negar que esperava por isso! Por que diabos eu ia querer ver luminárias?

Caroline teve de ceder. Ela também já imaginava poder agarrar o colega de trabalho em qualquer canto a sós.

- No meu último artigo, “Todo mundo trai”, eu explico bem essa sua atitude, Carol.

- Eu li, Eduardo. Mas ouça bem, se eu sou a típica infiel, você também é o típico infiel!

- Típico não! Comum! Comum é o termo certo...

- Infidelidade então é comum?

- Confessa, é a sua primeira vez mesmo?

A jovem olhou para os lados apenas para assegurar de que estavam mesmo a sós. Disse um “não” quase inaudível.

Agarraram-se mais uma vez. Incrível perceber a conexão (e o tesão acumulado) que sentiam um pelo outro. Eduardo puxou a saia de Carol para alcançar-lhe a calcinha com a mão. Ela não recusou. Ouviram um “ran ran” mal humorado do velho dono da loja que pegara o casal no flagra. Precisavam de um local para transar.

Caminhando pelo shopping aberto Eduardo tentava lembrar do motel mais próximo. Notou Caroline menos empolgada, um tanto taciturna.

- Carol, o que houve? Tá tudo bem?

- Hã? Ah sim! Tá tudo bem sim...

- Escuta, se você não quiser não tem problema, ok? A gente nem precisa fazer nada hoje...

- Não, não... não é isso... só tava pensando no que você escreveu... você me acha comum?

- Em que sentido? Normal? Todos nós somos...

- Falo no sentido ruim da palavra “normal”, acha que sou uma comum? Eu sempre achei que me destacasse dos outros...

Eduardo ficou preocupado. Não com a jovem, mas com a possibilidade de sexo ir por água abaixo naquela tarde. Tentou emendar.

- Olha, não se preocupa tanto com o que eu escrevi não. É só mais um artigo qualquer, uma crônica comum...

- Você quer dizer “normal”? Você acredita no que escreveu, não vá negar...

- Sim mas...

- Porque no fundo, agora eu vejo, anormal é quem é fiel. Mas não se trata de anormalidade e sim de peculiaridade. De se destacar, compreende?

- Ei, aqui é a saída norte, não é? Acho que tem um lugar ali que...

- Então é isso? A gente transa e depois?

- E depois?

- E depois transa de novo? E inicia um caso, é isso?

- Acho que sim...

- Eduardo eu já vinha pesando o meu relacionamento há um tempo e você só apareceu por conveniência. Eu não quero um amante. Não vou fazer uma coisa supostamente divertida agora pra depois voltar pro meu noivo depois. Você acha que vai, é lógico...

- Mas o que mais você queria? Eu amo a minha namorada. Você não ama o seu noivo?

- Ele não é má pessoa, mas... mas não é isso...acho que você e eu... bem, acho que a gente podia ter, ou ao menos tentar, uma vida diferente da que temos com nossos respectivos...

- Uma vida diferente de que? Da lasanha de microondas, dos passeios no shopping? Do almoço com os familiares e os inúmeros “chás” que eles cismam em dar?

- Sim! E diferente do Chateau Duvalier e do pay per view das tardes de sábado...

- Eu bebo Chateau Duvalier...

- Por que não procura pelo Doña Dominga?

- Você ainda não entendeu? Cadê o novo nessa história, Carol? É tudo vinho barato!

- Talvez não seja algo novo, Eduardo, talvez não seja o “incomum” ou “anormal” mas já é um “normal” diferente...

- Você fala de nós?

- Aham...

- E depois? A gente se trai e os anos se passam, e nossos filhos estudam em escola católica e passamos férias em Santiago ou Buenos Aires...

- E já mais velhos teremos glaucoma, diabetes tipo 2, refluxos, anginas, artroses... não parece muito glamouroso, Eduardo, e talvez nem tenha de ser... mas sei que ao menos podemos fazer diferente. O que temos pela frente são as opções. Tudo isso.

- Você quer dizer nada mais do que isso, né?

- Cada um encara da forma que melhor lhe convém...

- Então você vai desmanchar com seu noivo, é isso?

Caroline ficou muda.

- Você não é daquelas que trata relacionamento igual emprego não, né? Que só sai de um quando acha outro melhor?

- De jeito nenhum – mentiu – fico sozinha numa boa... mesmo que você não esteja interessado...

- Porque eu não sei se você sabe, mas não há seguro-desemprego pra namoro, viu?

- Deveria haver quando se é chutado, mas nesse caso quem vai chutar sou eu...

- Garota segura... gostei disso...

- E você, Edu? Vai terminar também?

- Eu... eu não prometo nada... na verdade prometo pensar... e discutir com ela... isso eu te prometo.

- Não sei se você já percebeu mas eu não vou dormir com você hoje...

- Tudo bem... eu também já não estou mais no clima... mas gostei da conversa que tivemos essa tarde...

Sorriram um para o outro.

- Eu também, Eduardo. De verdade... e quando é que nós vemos novamente? Pra acertar tudo isso?

- Sexta que vem? Não! Melhor na terça, eu tenho uma matéria no Pantanal, só volto na segunda-feira.

- Tá certo então. Eu ligo para combinarmos a hora e o local.

Trocaram os últimos beijos e despedidas, certos de que algo novo nascia ali e empolgados pelas mudanças que o futuro reservava para os dois. Nada de incomum ou anormal aconteceu em seguida. O clima esfriou, o momento de planejar mudanças passou e tiveram um caso normalque durou um par de anos. Um caso daqueles bem comuns mesmo, com dia e hora marcados no meio da semana. E seguiram suas vidas casados com seus respectivos parceiros, com seus filhos na escola católica, a menina no ballet e o menino no judô. E Caroline com suas reportagens de capa do caderno feminino e Eduardo com suas crônicas vazias e algumas centenas de leitores extasiados e ansiosos para lê-las todos os domingos. Domingos normais e comuns, como os leitores, Eduardo, Caroline e todos os outros, todos os que entram em lojas de luminárias.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Estol

Ao último sol se erguendo (acho que por volta das quinze pras seis) eu já me encontro de pé há pelo menos uma hora e meia. Batendo uma bola de tênis na parede, caminhando por esses míseros vinte metros quadrados que me separam de todo o meu medo lá fora. Quinze cigarros contam apenas por um. Com álcool não dá nem pra se enganar, mas estou longe de me tornar alcoólatra, graças a Deus. E meu apetite fica inversamente proporcional a minha apatia com as coisas. Na verdade alguns alimentos até tem me dado enjôo. Tenho refluxo. Justo na minha profissão, veja só que ironia.

Pior do que perder a sustentação, é não ter um lugar para cair.

Constato que o passar das horas se dá apenas em função de pensar no filme que você me gravou e acabamos não assistindo. O novo do Woody Allen? Com o Larry David? Era esse? Íamos nos divertir, eu aposto. Melhor do que qualquer deslumbre de Tim Burton que você sempre insistiu em consumir. Mas agora nem consigo pensar em filme nenhum.

Cito e repito coisas animadoras como se fossem mantras apenas para perceber que minha língua não profere nada mais útil do que essas toscas palavras.

Pior do que perder a sustentação, é não ter um lugar para cair.

Perdendo oxigênio. Despressurizando. Pouca visibilidade. Aumento de temperatura. Sudorese incontida. Lágrimas fora de hora, em músicas inusitadas e animadas de Julian Casablancas.

E o tempo passa e pelo menos eu posso sair de casa hoje. Um serviço. Um jantar pela noite. Me ligam, oferecem tanto. Nem é tanto, mas avisam: "fulano vai hoje, é restauranter famoso em São Paulo. Beltrana também vai, é crítica de cozinha daquela revista X, é sua grande chance, mas se não quiser eu ligo pra outro." Nessas condições, aceito prontamente.

Pior do que perder a sustentação, é não ter um lugar para cair.

Rapidamente penso em um menu fácil mas ao mesmo tempo nada simples. Algo que agrade sem soar pretensioso. O problema é pensar no paladar dos outros quando qualquer comida me faz sentir náuseas. Herança da sua língua, dependência da sua boca e de todo o resto de você. Adentro o recinto quente e abafado, o avental parece menos apertado. Perder um quilo e meio ao fim de uma semana é natural em um processo cuja primeira coisa que perco no início dela é você.

Pior do que perder a sustentação, é não ter um lugar para cair, quando não se sabe o chão, sua natureza, se é água, se é rocha, ir para baixo é uma ideia apavorante. Mas é aí quando percebo que pode haver problemas muito piores do que te perder é que ganho forças para me manter no ar por mais um tempo.

Enquanto isso, tento frear a queda.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Olhares alhures

E como se não tivesse percebido nada despejou em nós dois toda sua confiança fingida, todo seu orgulho e sua prontidão em estar já de bem com a vida depois que tudo (pouco) passou. Do mesmo modo que proclamou a todos sua retidão, seu equilíbrio e sua saúde de espírito. Como se ninguém tivesse problemas. Como se forçar um desvio de percurso, um desvio de olhar, um desvio de comunicação, um desvio de gestos, uma ajeitada no cabelo para outro que não fosse eu, um sorriso pra qualquer estranho ou “conhecido” que também não fosse eu, obstasse qualquer “telepatia” da minha parte. Conhecê-la tão bem de dentro nunca me impediu enxergar com exatidão as coisas de fora. Um outro contexto e um certo e necessário distanciamento garantiram-me uma visão que você não acreditou que eu pudesse obter. Você pensava, refletia e suspirava para mim. Ainda que em um silêncio e discrição absurdos.

Mesmo assim, melhor seria permanecer na mesma. Porque enxergar seu excesso de segurança foi realmente um saco. Saber do seu fingimento e por medo de denotar certo recalque, não poder relatá-lo a todos, tornou minha situação um calvário. No carro, quantas vezes você “não se deu conta” que minha rua já havia passado? Quantas vezes não perguntou “ingenuamente”: “ah sim! Você mora pra lá, não é?” Como se esquecer os detalhes da minha vida, meus gostos pessoais e minhas características, me fizesse menos importante para você. Você forçou e fingiu, mas não esqueceu, nem me tornei menos importante. E a cada boa noite dado onde eu agradecia a carona e você dizia “até amanhã” sorrindo de forma blasé, eu só descia de seu carro pensando num jeito de faltar no dia seguinte.

E quando me fazia ausente em um dia e retornava no outro, buscava em você uma ponta de curiosidade, uma incerteza, uma confusão de sentimentos, eu esperava na verdade que você indagasse o motivo de minha ausência. Mas você, estoicamente, nunca perguntava. Eu que me questionava onde havia ido a menina que não era tão blasé. Que não era tão segura de si, tão arrogante e cheia de pose. Tão preocupada com papéis e títulos que nunca conferiram nada a você. Onde estava a menina tão linda, tão “palhaça”, tão divertida, que sabia rir espontaneamente, que no meio da estrada via a placa “depressão na pista” e parava no acostamento para tirar uma foto chorando de mentira ao lado da placa? Onde estava, não a menina que tinha os olhos em tudo menos em mim, mas sim a que me olhava diretamente nos olhos? A mesma menina que se sujava despreocupada e despretensiosamente com um sorvete de maracujá que eu achava insosso, mas que sempre me aconselhava tomá-lo para que eu ficasse menos elétrico, menos acelerado. Você fez questão de sufocá-la. E eu resolvi fingir também. Porque não me restava outra coisa. E você passou a desviar menos o olhar.

E com o tempo constatei que você não mirava como eu. Porque apesar de não mais suportar todo o seu fingimento, acabei descobrindo ao forçar certa falsidade, que você mirava-me direto, sem desvios, preocupada com minha atitude dessa vez despreocupada. Também blasé. E aí das duas uma: ou eu era um ótimo ator e fingia perfeitamente, ou você no fundo, era mais insegura que eu e caía na pilha direitinho. Na metade do tempo em que eu levava para cair.

Mas quando também, cansada desse fingimento todo, você resolveu que era melhor dialogar e despejar a atuação no ralo, já era tarde demais. Eu já havia saltado e fechado a porta do carro.

Não sem antes agradecer a carona, é claro.

sábado, 18 de julho de 2009

As Atribuições Que Condenam Cada Um

Qualquer sensação de culpa por parte de Eriberto pelo fato de estar traindo Susanna era logo sublimada após um ataque de frescura dela. Novamente reclamava porque ele ia pedir um prato nada saudável, costeletas de porco. Como ela fazia aquilo com ele? Era sexta feira, a semana toda fora de trabalho estressante, ele, mais do que ninguém, tinha direito a deliciar-se com alguma comida gordurosa. Todo aquela ralação tinha o fim de garantir um futuro confortável para os dois! E ela? Encostada na faculdade mais fácil de se cursar, uma rotina de academia, salão e curso de italiano semanalmente. Vida mais tranquila impossível! Que não viesse então a encher-lhe o saco, era o que pensava o rapaz.

Estava ficando mais gordo, era fato. Lembrava-se da última vez em que subira uma escada sem fazer esforço. Não muito tempo. Mas todo o esforço feito tornava o intervalo entre a magreza e a obesidade maior. Susanna todavia, não podia reclamar de nada. Quem possuía os direitos de casal era ele. Afinal, como seu pai lhe ensinara, o homem devia ser um bom provedor. Assim manteria a mulher no controle, no seu devido lugar. E até o presente momento, as coisas iam bem com Susanna. Tirando os ataques de frescura dela, dos palpites que dava sobre tudo o que Eriberto fazia e o sexo.

Na verdade este último problema era o que mais incomodava o rapaz. Uma garota tão bonita de corpo e de rosto ser tão fresca na cama era, para o ele, no mínimo um desperdício. Começara com as recusas de Susanna para sexo anal, passando pela reclamação acerca da variação de posições na cama e a negação de uma depilação pubiana mais ousada, que chamasse mais a atenção de Eriberto. A última (e pior) briga do casal sobre o assunto deu-se quando Eriberto mencionou o nome da prima de Susanna numa “inocente” sugestão de
ménage a trois. A menina quase bateu em Eriberto que teve de mentir alegando tratar-se apenas de uma brincadeira, que não sentia atração sexual alguma pela prima de Susanna. A jovem ficou uma semana sem falar com o namorado. Eriberto teve de comprar flores e sapatos novos para a amada a fim de relatar a reação. Mas não podia suportar mais aquilo.

Foi quando conheceu Karen numa festa junina de sua tradicionalmente católica faculdade. A menina, bonita e atraente (mas não tanto quanto Susanna), logo foi alvo de flerte do rapaz. Começaram a sair dias depois. O sexo era uma maravilha. Karen era a amante perfeita. Não negava nada a Eriberto que, mais satisfeito, pôde tolerar as chatices de Susanna. Obviamente sempre se viam as escondidas. Era esse o papel de Karen. A amante que nada recusava –principalmente na cama - a Eriberto. O jovem agora, era uma espécie de provedor, uma vez que nunca negava os jantares em restaurantes caros e roupas de grife que Karen dizia adorar. O maior problema naquela sexta-feita era Karen desrespeitando uma regra básica do casal de amantes: a de não ligar nos fins de semana.

- O que você mexe tanto nesse celular?
- Hã? Eu? Nada, Su.
- Parece até que você não quer atender... ou então tá falando com alguém por SMS.
- Eu? – ri desconcertado o jovem – Que isso, amorzinho! É porque me ligaram por engano e agora não param de ligar. Vou até colocar no modo silencioso para não encher o saco.

Karen estaria se apaixonando? Não. Não podia ser. Até mesmo porque Eriberto não largaria Susanna, futura esposa e mãe perfeita, coisa que Karen estava longe de ser. Além do que, Karen não possuía a educação e a estável condição financeira de Susanna. Para Eriberto, as coisas estavam perfeitas como se davam. Com Karen tinha relações sexuais mais do que satisfatórias e com Susanna, levava uma vida sócio-afetiva da qual não podia reclamar. O problema é que agora Karen ficava ligando. O que devia querer? Apaixonada ou não, Eriberto sabia que a condição financeira de sua família atraia Karen. Caso largasse a atual namorada e pedisse a jovem amante em namoro, Karen aceitaria na hora, Eriberto sabia disso. Ainda assim, a simples ideia de assumir um namoro com a menina deixava Eriberto com uma certa vergonha. Um misto de culpa e vergonha por Karen ser uma suburbana gostosa e foguenta, mas pobre, e ele, um jovem riquinho visivelmente acima do peso e engomadinho, que certamente só conseguiria uma menina bonita por conta do dinheiro. Só que Eriberto sabia muito bem disso. Não desconhecia o seu papel. O que lhe dava raiva era que Susanna e Karen, às vezes pareciam se esquecer de suas atribuições. Susanna, que deveria ser a esposa calada e bem provida, com frequencia virava uma vadia chata e implicante e Karen, amante trepadeira, agora queria um romance claramente interesseiro para subir seu status.

Karen liga mais uma vez. Coincidentemente Susanna vira-se para o namorado. Eriberto consegue ocultar da namorada o celular piscando e o desliga.

- A comida tá demorando muito. Eu vou ao banheiro e já volto. – diz ela para o namorado.
- Claro amorzinho, vai lá! –responde enquanto checa mais uma vez seu celular piscando sem que ela perceba.

A ausência de Susanna é mais do que propícia para que Eriberto possa ligar para a amante. Afasta-se da mesa onde estão reunidos todos os amigos para o aniversário de um terceiro e disca o número de Karen.

Na rápida conversa a jovem alega estar preocupada com a menstruação que não desceu. Eriberto acalma-a e despede-se avisando que vai ligar na segunda. Sabe que Karen está mentindo para poder ficar com ele no final de semana. Toda a conversa ao celular não o estressou nem um pouco, o mercado de moedas por si só já o deixava bastante preocupado para que ele perdesse tempo com aquelas besteiras.

A comida realmente estava demorando como Susanna alegara. Decidiu ir ao banheiro que ficava no segundo andar. Após algum esforço chegou ao segundo piso que se encontrava vazio.

Caminhando mais um pouco parou assustado. Um casal transava no banheiro feminino. A porta aberta revelava tudo, mas só Eriberto via, era o único ali no segundo andar. Aproximou-se para ver melhor e quase não acreditou no que viu. Aquela garota de vestido preto, longos cabelos escuros presos num rabo de cavalo e olhos verdes era Susanna! Não pôde ver o rapaz, pois este estava de costas para Eriberto. Susanna sentada com as pernas abertas no tampo de mármore da pia do banheiro era rapidamente penetrada pelo desconhecido. A garota, com a cabeça para o alto e de olhos fechados, nem percebeu a presença do namorado a poucos metros da porta do banheiro.

A primeira reação de Eriberto foi de extrema surpresa e indignação. Como ela era capaz daquilo? Nunca esperara isso dela. Mas que devia o jovem rapaz fazer? Não sabia se ia até lá e separava os dois, se ia embora e abandonava Susanna de vez, se chamava Karen para o restaurante e humilhava Susanna na frente de todos... estava agora em dúvida plena.

E o que ele não esperava da parte de Susanna, esperaria menos ainda de si mesmo num momento como aquele. Estava estranhamente excitado. Tão estranho que aos poucos foi tornando-se mais intenso. E a surpresa por estar excitado naquele momento só trouxe a tona mais excitação ainda. E sentiu suas calças esquentarem. Não pôde evitar levar sua mão até sua genitália e apertá-la. Abriu o zíper de seu jeans e masturbou-se ali mesmo. Não era a hora mais apropriada para negar ou aceitar qualquer fetichismo que até então latente tornava-se agora externo. Precisava apenas satisfazer seu desejo. Ejaculou no mesmo momento em que o casal teve um orgasmo e parou de transar. Recompôs-se mais rápido do que eles e desceu.

Susanna apareceu minutos depois sem o menor olhar incriminador pelo que acabara de fazer e olhou para Eriberto com reprovação. Eriberto, suado feito um porco, não entendeu o motivo do olhar. Por fim os pratos chegaram e eles começaram comer.

E quando, do nada, a namorada retirou uma costeleta de seu prato, pôs junto da salada dela e começou a comê-la avidamente, Eriberto conformou-se aceitando que a partir daquele momento, pelo menos os ataques de frescura dela iam parar.
 
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