sábado, 24 de dezembro de 2011

Na melhor das hipóteses, no pior dos mundos possíveis.

O que é melhor, isto é, o que é menos pior? Hiperventilar com o frio extremo na pele e o ar gelado invadindo as vias respiratórias ou sibilar sem parar devido à falta de oxigênio provocada pela intermação?

Medir dores, sofrimentos e flagelos não é algo muito comum. É sábio escolher a própria pena (ainda que merecida ou não) ou apanhar um problema para si próprio a fim de evitar outro supostamente pior?

O quanto de sentimento é necessário para os que estão a nossa volta perceberem nós mesmos como equilibrados, estáveis e normais? Pode-se dosar sentimento? Em quais ocasiões? Onde a expressão é profunda demais e onde ela se torna superficial? E quando é necessário se preocupar com os que estão a nossa volta?

Porque, todo mundo sabe ou pelo menos imagina, é sempre bom demonstrar um mínimo de sentimento vez ou outra. Vale até chorar como o Tom Cruise naquele filme sobre flores e perdão. Ainda que o choro (o seu e o do Tom Cruise) seja mais falso que nota de três reais vale a pena a sua expressão. É que nem demonstrar solidariedade dando os pêsames numa perda que não te afeta muito, na verdade não te afeta em nada, mas você imagina (dizer que sabe é besteira) o quão dolorosa possa ser aquela perda para o que sofre.

Egoísmo? Não. Autodefesa? Muito menos. Também não se trata de conformismo, apenas aceitação. Abrir os olhos para a realidade de que o sofrimento em alguns casos é inevitável. Já sei, muitos dirão que a dor é que é inevitável e o sofrimento é que é opcional, certo, mas vale lembrar que esse não é um conceito muito menos uma idéia absoluta. Em alguns casos o sofrimento será opcional sim.

A discussão toda se dá pela complexidade que é pensar em escolher os problemas. Escolher as felicidades, em cem por cento dos casos, envolve enfrentar uma dúvida facilmente sublimada no desfrute da recompensa. Ninguém fica pensando em Aruba enquanto está deitado ao Sol de Vanuatu. Já ter de optar por diversos tipos de dores, sofrimentos e angústias é uma tarefa terrível. O sofrimento já começa na própria escolha.

“Relativizar”sofrimentos, dores e angústias é algo extremamente fastidioso, mas imprescindível para quem quiser compreender qualquer coisa fora da alçada individualista. É o grande mal da nossa juventude estragada pós-moderninha. Hedonismo, niilismo, ateísmo conceitos bonitinhos e prepotentes que logo se esvaem quando a primeira garota dá o fora da boate ou o primeiro aviso de “eu vou embora” é proferido. Aí as crianças mimadas e altamente dependentes (o medo da solidão é a marca da nossa garotada) junto com a indecisão (que dependendo do ponto de vista não constitui em si um problema) abrem o berreiro. Querem atenção, conselhos, alguém que as ensine a serem menos dependentes, menos individualistas, menos moderninhas quebradeiras de garrafa ou cambaleantes da madrugada.

Quando se deixa a alçada individualista é que o espiritualismo, antes estático, é tomado por uma faísca de compreensão (vale epifania, serendipidade, qualquer coisa imersa em entendimento) e a crença pode aflorar. Não, não é apostasia, muito menos proselitismo, simplesmente crença. Digo “crente” não no sentido pejorativo com o qual nomeiam os protestantes, apenas crença no sentido de se crer e aceitar em algo mais. Algo além da alçada do próprio umbigo, fora do diâmetro da coroa dos egos inflados de super-homem cansados de ler Nietzsche. E quando um desses jovenzinhos arrogantes descobre isso, quando destoa da juventude pós-moderna, é tido pelos outros como um estóico, um “iluminado” ou então, um simples louco. Mas como todos estão preocupados em arrumar público para seus monólogos ou terapeutas gratuitos, os diferentes acabam incumbidos do chatíssimo papel de ouvidor-mor.

Salvam-se os que compreendem tal habilidade e passam a guiar os outros. Purificam-se os que auxiliam os jovenzinhos arrogantes a lidarem melhor com seus sofrimentos. Saem por cima aqueles que manejam carisma e boas idéias sem sofrerem a ação do desgaste oriundo do falatório alheio.

Na melhor das hipóteses, no pior dos mundos, eu manejo bem as idéias, mas não tenho nenhum carisma. Logo não preciso arcar com o cargo de ouvidor-mor, e dou graças a Deus por isso.

(09.12.07)

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